Não sei jogar

Sei que é muita pretensão da minha parte, mas a idéia desse (mais um) blog é retratar o dia-a-dia através das lentes (onde estão os meus óculos?) tão pouco usadas por todos nós...

Wednesday, February 22, 2006

Página 23 do livro próximo

Seguindo o ritual da dona Cris, peguei o livro mais próximo. O que eu estou lendo, o tal de Reações Psicóticas escafedeceu-se da cestinha de bugingangas literárias. Vamos abrir o livro "Boca Feliz" da Sonia Hirsch - Correcotia Produções - edição de 1996 (original de 1989). Tudo isso para narrar o seguinte período significativo na vida de algum leitor, espero:

...A pessoa começa a beber socialmente, depois se acostuma com aquele papinho que só acontece no bar, aos poucos o organismo vai tolerando doses cada vez maiores e um belo dia a bebida se torna mais importante do que qualquer outra coisa...
|

Tuesday, February 21, 2006

Meio-ambiente

Terça-feira, 14h30.
A campainha da casa de Sandra Andrade Lugli, moradora do bairro Santa Terezinha em Santo André, ABC Paulista, toca mais uma vez. Agora, não é nenhum vendedor, correio ou o vizinho do lado. A visita é do jovem agente ambiental Bruno Zarzan, 17 anos, do programa Casa a Casa, desenvolvido pelo Instituto Ação Triângulo. Bruno inicia a conversa identificando o trabalho do grupo e passa diversas informações sobre consumo consciente. Ele lembra a moradora da importância de se dar um destino correto a materiais como pilhas e também ao óleo de cozinha, grandes depredadores ambientais e hoje ainda jogados de qualquer forma na natureza.
"Lá no interior, onde a gente morava, o óleo era jogado na terra mesmo. Mas, aqui vai pra pia. A gente não sabe muito o que fazer com os materiais, para quem doar aqui na cidade", afirma Sandra.
No final da conversa, Bruno orienta a moradora a separar o material que, no próximo mês, os agentes irão retirá-los.
"Eu achei ótimo vocês virem na minha casa passar estas informações. Agora vou separar tudo o que eu tenho", anima-se Sandra.
No outro lado da rua, a moradora Aparecida Gomes Menezes, que já havia recebido o grupo de agentes ambientais nos meses anteriores, entrega à jovem Tatiane Rosa sua parte do óleo de cozinha separado. São 2 litros de óleo que deixaram de ser despejados na rede de esgoto, córregos ou rios. "É preciso preservar o meio ambiente. Meu filho mesmo vive me dizendo: 'vocês adultos estragaram o mundo'. Bom, agora eu estou tentando ajudar a consertar", conta Aparecida, que também faz reciclagem do lixo. Depois de mais uma visita, os agentes seguem adiante, pois ainda irão percorrer muitas ruas até às 18h, horário em que encerram as atividades. Nos outros bairros, cerca de 60 agentes ambientais fazem o mesmo trabalho. Nem a chuva ou o sol forte atrapalham a disposição dos jovens agentes. No dia seguinte, tudo recomeça e outros moradores irão receber informações sobre a prática de novos hábitos, principalmente quanto ao descarte de materiais e resíduos. Os moradores são incentivados também a participarem da coleta seletiva e doarem roupas usadas, distribuídas em comunidades de baixa renda. São ações simples que irão colaborar para a garantia de um desenvolvimento sustentável da cidade. Além de orientar, os agentes preenchem ainda um cadastro com todas as informações sobre a casa, como, por exemplo, se a família já faz parte da coleta seletiva, se contribui com projetos sociais, se foi sensibilizada pela campanha, entre outras informações. A proposta é formar um grande banco de dados e mapear a cidade quanto ao comportamento dos moradores. A ação Casa a Casa já é desenvolvida há um ano e meio pelo Instituto Ação Triângulo, em caráter experimental inicialmente em Santo André. Nesse tempo, foram visitadas 14 mil residências, com o recolhimento de cerca de 10 toneladas de óleo e 1,5 toneladas de pilhas e baterias. Neste ano, a ação ganhou o apoio da empresa Petrobras e desta forma poderá beneficiar também as cidades de São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, também no ABC. A proposta é orientar 60 mil famílias por mês. Segundo José Aparecido Barbosa, gerente de comunicação institucional da região São Paulo-Sul da Petrobras, a empresa, que já tem uma política interna de investir em projetos ambientais - em 2005, por exemplo, foram investidos R$ 40 milhões em projetos com foco na questão da água - decidiu apostar no Casa a Casa pelo seu caráter inovador no sentido de envolver a comunidade local na preservação da natureza.
"É interessante pensar que o projeto cria um novo hábito na casa que pode ser replicado para muito mais pessoas. Além disso, o fato do agente ir até a residência, cria uma relação de proximidade e intimidade muito maior para uma melhor conscientização", comenta o gerente, lembrando a importância de se estabelecer esse tipo de parceria - empresa e entidade social - em busca de soluções para os problemas que atingem a sociedade.
Primeiros passos: Eduardo Maki, coordenador do Instituto, explica que a idéia da ação surgiu a partir de uma insatisfação e o desejo de mudança de um grupo de amigos. Ao estudarem as propostas das Agendas 21 Locais, eles perceberam os desafios e as dificuldades em comunicar à população que existem formas interessantes de se fazer ecologia urbana.
"O jeito mais fácil que encontramos de levar essa informação é bater de porta em porta. Com a proposta de não fazer uma visita só porque não há conscientização, mas sim com visitas mensais", comenta Eduardo, lembrando que os agentes distribuem também aos moradores a revista Planeta Cidade sobre meio ambiente.
Durante as visitas, o material recolhido é contado e separado em recipientes adequados para serem encaminhados ao Instituto. Todo o óleo vegetal é levado para uma usina própria. O resíduo passa por reciclagem e se transforma em sabão para ser comercializado também pelos agentes durante as visitas. São produzidos cerca de 2 mil produtos por dia e o pacote com cinco unidades custa R$ 3,00. Além de garantir a auto-suficiência do Instituto, a operação também gera emprego e renda para os jovens agentes ambientais. Eles recebem uma bolsa-auxílio para realizar o trabalho e é dada preferência para aqueles que estão em busca do primeiro emprego. Tais dos Reis, 19 anos, por exemplo, está há duas semanas no Instituto, e diz que está muito contente com o trabalho, pois sempre gostou de ajudar e agora colabora ainda com a preservação ambiental.Paciência e persistência acima de tudo. Mas a tarefa de levar informações à população de casa em casa não é tarefa fácil. Nem sempre os agentes são bem recebidos e é comum os moradores não valorizarem de fato essa ação.
"Na primeira visita, tem morador que nem atende a campainha. Na segunda, já atende e presta atenção nas informações. Na terceira, já cobra o vizinho pra participar também", destaca Eduardo. E quem vive isso de perto no dia-a-dia sabe muito bem como é complicado ouvir um não. "É difícil. Tem muita gente que não quer saber. Mas os idosos prestam mais atenção. Ontem mesmo um senhor disse que já conhecia o trabalho e gostava muito. Isso é bom. O importante é ressaltar para os moradores que estamos trabalhando para as gerações futuras", aponta Bruno. E aqueles que ouvem bem as orientações dos agentes concordam com a importância da participação de todos para a preservação do meio ambiente. A moradora Cristina Rocha acredita que o mínimo que ela pode fazer para colaborar é separar corretamente o lixo. "Tem muita gente que diz que não vai fazer nada porque sozinho não adianta. Só que se todo mundo pensar assim nada vai mudar. É preciso fazer algo", acredita. Segundo o coordenador do Instituto Ação Triângulo, a proposta da organização é que a ação Casa a Casa se torne auto-sustentável para, em breve, poder ser replicada em outros centros urbanos. Já há interesse de diversas outras entidades do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Norte, por exemplo, em desenvolver a mesma atividade nestes locais.
Texto produzido pelo Serviço Instituto Ação Triângulo
Endereço: rua Conselheiro Justino, 448, Bairro Campestre, Santo AndréTelefone: (11) 4991-1112 Site: www.triangulo.org.br
|

Sunday, February 19, 2006

"Por que hoje é sábado"


Aqui no Rio sábado é o melhor dia para lazer. No verão vamos à praia caminhar, tomar sol, jogar vôlei, frescobol, tomar sorvete e água de côco. No outono, inverno e primavera fazemos a mesma coisa...

No sábado que passou, resolvi fazer um programa diferente, já que nunca vou à praia por motivo de esquecimento. Moro ao lado de uma praia e o fato de vê-la todos os dias me faz pensar que é uma paisagem como outra qualquer. O fato se repete com meus vizinhos; exceto o surfista e o lutador de jiu-jitsu. Azar o deles!
Voltando ao assunto, resolvi por motivo de solidariedade acompanhar Cristiane que faria prova para professora municipal de uma pequena cidade da baixada fluminense. Aqui, como em Sampa, também temos baixada. Ao contrário da bela baixada santista onde mora o moço-Ronzi, a nossa é bem pobre e por consequência feia. Curral eleitoral durante décadas do coronelismo local, nunca conseguiram se sobressair no IDH da ONU. Antes do golpe militar, era famosa por ter um coronel chamado Tenório que foi prefeito de Duque de Caxias e andava armado de metralhadora. No fim dos anos 70 (ápice da Ditadura) o município de Belford Roxo (terra do Cidade Negra), conquistou a marca de cidade mais violenta do mundo. No ano que vem terá seu segundo hospital inaugurado na cidade de Queimados, graças a iniciativa federal. Não existem recursos nas prefeituras. E no governo estadual não existe nenhuma vontade política de ajudar a região. Possui duas escolas técnicas (Nilópolis e Nova Iguaçú) graças a convênios dos municípios com o governo federal. Três campus avançados de universidades públicas funcionam em Duque de Caxias, Nova Iguaçú e São joão de Meriti. O de São João será fechado por falta de pagamento de energia elétrica pela Prefeitura. Alta mortandade infantil contrastando com o luxo das escolas de samba Beija Flor e Grande Rio. Time de futebol de Nova Iguaçú na primeira divisão do campeonato estadual contrastando com chacinas frequentes na cidade.
Mesquita é a cidade mais pobre da baixada. Fruto de decisão plebiscitária que separou-a de Nova Iguaçú há dez anos atrás. É para lá que Cris tenta uma das onze vagas de professor de inglês. Acham poucas? É que vocês não viram a relação candidato/vaga na área de história. Coisas de uma país de sonhadores, onde escolhemos lecionar nas áreas humanas em detrimento das ciências exatas. Por conta de um salário razoável e de uma jornada de trabalho mais amena, milhares de candidatos oriundos da capital e de cidades mais ricas do interior tentam invadir a "praia" de Mesquita. Fugindo também do preconceito das escolas particulares que discriminam professores novos e velhos. Uns por falta de experiência e outros por estarem desatualizados para o ensino moderno. Na escola particular de hoje, prepara-se o aluno para passar no vestibular através de macetes e métodos de ensino que fazem que a criança/adolescente seja mero depósito de conhecimentos. Muitos desses conhecimentos não serão usados durante a sua vida adulta, fazendo com que ele lembre da inutilidade de ter estudado tanto para tão pouco.
Apostando numa proposta diferente, de um prefeito oriundo das CEBs, lá foi Cris e tantos outros em busca do eldorado que não é um país onde o ouro brota nas calçadas. Nesse país teremos que trabalhar duro durante muitas décadas para reconstruir o que o colonizador deixou
de escombros culturais durante 500 anos.
|

Thursday, February 16, 2006

Hoje é o Primeiro Dia do Resto da sua Vida


Como já vinha esperando, saíram os cds dos Mutantes. Só que dessa vez remasterizados. Bem do jeito que os ex-integrantes gostariam de fazer na época em que revolucionaram o rock nacional. Eles foram bons de música e tecnologia. Numa época em que quem mandava no país usava uniforme verde oliva, os caras mandavam letras irreverentes. Desde o primeiro disco (chamado"Os Mutantes") tiveram influências fortíssimas do tropicalismo. A participação do grupo acompanhando Gilberto Gil no Festival da Canção é histórica e no primeiro vinil mandaram recado claro gravando Panis et Circenses. Não tenho esse cd mas prometo que não vou perder a chance de comprá-lo. O meu vinil levaram e não sei onde foi parar. Tempos atrás não controlava direito meu pequeno acervo. Só fui aprender a zelar por cds depois que ficou cansativo contá-los. Deixo com vocês, a crítica publicada ontem no JB, do baterista dos Titãs, Charles Gavin, aos discos relançados antes tarde do que nunca.
Os Mutantes (1968) -
É o primeiro álbum da banda e foi gravado em meio ao movimento tropicalista, do qual o grupo também fazia parte. Rogério Duprat fez os arranjos e Manuel Barenbein produziu. Guitarras distorcidas, vocais com echo exagerado, apitos, percussão, órgão farfisa e efeitos especiais. Rigorosamente necessário.
Mutantes (1969)

Segundo disco. O grupo faz parcerias com Tom Zé (Qualquer bobagem e Dois mil e um) e investe em composições próprias também. O genial arranjo para orquestra que Duprat fez para a faixa Fuga número II (um dos seus maiores clássicos) indicava que estavam diretamente conectados com Abbey Road. Por outro lado, há violas caipiras, efeitos eletrônicos e principalmente muito humor nas letras - característica que se tornou marcante e definiu a cara da banda. Absolutamente necessário.

A divina comédia ou ando meio desligado (1970)

O trio aposta mais em suas composições e convida o jovem baixista Liminha e o baterista Dinho para as gravações. A banda acabaria se tornando um quinteto no projeto seguinte. O resultado é pouco menos experimental do que os álbuns anteriores. Mas ainda há traços marcantes do tropicalismo - a canção da velha guarda da música brasileira Chão de estrelas (Silvio Caldas/Orestes Barbosa) é resgatada com colagens, efeitos, jazz, mudanças rítmicas e, obviamente, muito humor na interpretação. Há também o superclássico, marca registrada dos Mutantes, Ando meio desligado. Absolutamente necessário.

Jardim elétrico (1971)

Agora os Mutantes têm cinco cabeças. Compõem engraçadas letras em inglês e espanhol e a sonoridade muda um pouco. Mas a ironia e o deboche predominam. A banda ganha o status de supergrupo, devido aos arranjos complexos que elaboram. Duprat ainda está presente nos arranjos para orquestra. O clássico Top Top marcou época. Absolutamente necessário.
Mutantes e seus cometas no país dos baurets (1972). Arnaldo Baptista vai para a produção e este é, sem dúvida, o disco mais rock'roll e mais pesado da fase clássica da banda. O título da primeira faixa, Posso perder a minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o rock and roll, tornou-se lema para muita gente. As mães reclamaram, é claro. Mas não era só isso. A faixa Balada do louco, cantada magistralmente por Arnaldo, foi um tapa na cara do regime militar e da caretice burguesa do começo dos anos 70. A hora e a vez do cabelo nascer, um visceral rock hendrixiano, também sofreu a ação da Censura, mas acabou entrando no disco, graças à ótima mixagem que escondeu alguns trechos da letra. Rigorosamente necessário.

Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida (1972)

O disco entrou para o projeto de remasters graças a um papo que Marcelo Fróes, produtor do projeto, teve com Rita Lee em 1999. A rainha do rock brasileiro revelou que este trabalho foi creditado a ela por razões jurídicas e financeiras, mas o projeto era uma criação da banda, que já havia lançado naquele ano o álbum Mutantes e seus cometas no país dos baurets. Talvez ninguém tenha desconfiado porque Rita Lee canta em todas as faixas... Necessário.
A e o Z (1992). Produzido pelos Mutantes, as faixas foram originalmente gravadas em 1973, após a saída de Rita. Foi lançado somente em 1992. Muito rock'n'roll, mas a química já não era a mesma. Necessário.
Tecnicolor (1999)

Gravado em Paris em 1970 durante uma turnê, já com Liminha e Dinho. Os clássicos da banda foram cantados em versões inglesas com a intenção de alcançar o mercado europeu. As masters foram guardadas pela gravadora e encontradas somente em 1998 por Fróes. O álbum foi lançado em 1999, finalmente. Ótimo disco. Absolutamente necessário.

Rogerio Duprat/ A banda tropicalista do Duprat (1968)

O disco está no projeto porque os Mutantes participaram dessas gravações como banda de apoio em quatro faixas. Extremamente raro, o LP é disputado a peso de diamante na Ebay e nos sebos de vinil do mundo todo. Somente agora (graças aos céus) foi relançado. Obra-prima, jóia do movimento tropicalista, o disco dá o seu recado já na primeira faixa: um pop com guitarra distorcida, solo de cuíca, arranjos a la musicais da Broadway, buzina de carro e por aí vai. Aqui se encontra de tudo: Beatles (Lady Madonna e Flying), Carmem Miranda (Chiquita Bacana), TomJobim (Chega de saudade) e Gilberto Gil (Frevo rasgado) em leituras eternamente modernas. Vale muito a pena ter esse CD. Corra! Rigorosamente necessário.
|

Wednesday, February 15, 2006

Simplesmente Lili

Sonhei que conhecia a Lili. Íamos a padaria e lá estava ela, formosoa a nos esperar. Ficamos encantados com o que vimos. Uma moça aparentemente muito nova, exalando ar juvenil através de olhar expressivo. Cabelos presos sob pele clara. Mas tudo isso apesar de bonito, era o que menos importava.

Discutimos o belo. Ouvimos dela argumentos fortes de alguém que vive em busca da manutenção do que o ser humano faz de mais profundo, a arte pela arte. As horas não se passavam ou não sentíamos o tempo. Cris atenta e preocupada deu fim a conversa lembrando da distância que haveria de vencer para o retorno ao lar. Acostumados a blogosfera, achamos tudo perto após o movimento do mouse e de digitarmos endereços de pessoas queridas.
Separamo-nos após a chegada da van. Marcamos o tempo de viagem e ficamos imaginando sua chegada no lar. Quanto tempo levará para que a vejamos novamente? Talvez outro sonho, desses em que a blogosfera realiza desejos de conhecermos pessoas que nos cativam por seus textos. Pessoas que são belas, exatamente como as palavras que dizem. Gente que quer e busca um mundo melhor!

ouvindo "O A e o Z" com Mutantes.
|

Saturday, February 11, 2006

Textos Apócrifos


Arnaldo Jabor, aquele cara enjoado que comenta política na telinha, conta que uma vez foi convidado para ser paraninfo de uma turma de formandos de comunicação no interior. Ao chegar lá, foi informado pelo Diretor do curso que havia sido convidado por causa de um texto seu que corria pela internet. Ele havia gostado tanto que havia mandado fazer uma brochura para distribuir na faculdade. Ao ler o texto, Arnaldo tomou dois sustos: um porque o texto não era de sua autoria e o outro por que era uma merda.
"Quando Roberto Frejat gravou "Amor Pra Recomeçar", houve alegações de que a letra pertencia a um poema de Victor Hugo que corria pela internet. A solução encontrada foi admitir a inspiração no poema "Desejos" que quase todo mundo já recebeu por e-mail pelo menos uma vez. Só que o nome do poema se chama "Votos" e pertence ao jornalista/teatrólogo Sérgio Jockymann. Uma crítica ferina ao culto da estética foi atribuída a Herbert Vianna. O texto na verdade pertence a blogueira Rosana Hermann, que postou no blog "Queridos Leitores", segundo o colunista Emílio Pacheco da Revista IM."
São tantos casos desse tipo, que não vou ficar espantado se encontrar um texto das Lilis ou do Ronzi com outra assinatura daqui a algum tempo. E prometo que vou ficar bastante irado se encontrar um texto (dos maravilhosos que ela cria) da dona patroa circulando como Simone de Beauvoir, Zélia Gattai ou alguma mulher do mundo literário. Por outro lado, entendo que isso só acontece porque repassamos tudo que achamos legal ou belo, interessante ou inteligente sem nos darmos ao trabalho de checarmos a fonte.
|

Tuesday, February 07, 2006

Para a gente refletir ...

Viviam juntos há anos, tragados pela rotina, essa mesmice atordoante, reprise cotidiana de um calendário imutável de quem jamais se imagina dominando o tempo: o banho matinal às pressas, o café engolido, o jornal lido pelas manchetes, o trabalho, o almoço corrido, o trabalho, o lanche da tarde e a noite centrada na TV soberana.
Havia sempre uma voz exterior a decretar o silêncio do casal. Pela manhã, o rádio, as notícias do outro lado do mundo, o horóscopo do jornal, os índices do mercado financeiro. E telefonemas familiares. Havia pouco tempo para palavras entre eles: não esquecer de comprar azeite, a conta do telefone, cumprimentar o irmão pelo aniversário, a revisão do carro, o cuidado dos filhos. Tudo muito telegráfico enquanto se penteava o cabelo e vestia a roupa. Bastavam-lhes um vocabulário trivial, exíguo, onomatopéico.
Foi numa dessas noites de solidão partilhada que, súbito, vencido o estado de hipnose, ela desligou o televisor, justamente quando a novela atingia aquele momento de ápice que convida os telespectadores a retornarem dia seguinte. Ele estranhou. Antes de se manifestar, cultivou perplexo seu monólogo interior. O que deu nela? Por que esse gesto impetuoso? Algo na novela a incomodou?
Toda quebra de rotina é um atentado a mecanismos atávicos. Amantes são intempestivos, implodem previsões, irrompem insólitos como vulcões que se recusam a adormecer. Depois o casamento os faz parentes um do outro. As lavas esfriam, a boca incandescente apaga-se, o que era vulcão se transforma numa bucólica montanha apaziguada por brisas suaves, às vezes atingida por pequenos abalos sísmicos.
As coisas retomam a sua cronologia, o seu ritmo, e depois de tantos anos de convivência não é nada fácil admitir que há no outro um estranho, um lado oculto, submerso, que de repente emerge e desestabiliza. Melhor que a fera seja mantida à distância, enjaulada nas racionalizações que matam a jovialidade e domesticada pelo temor de reinventar a si mesmo, camuflada sob o manto da suposta maturidade.
Ele conseguiu manifestar seu desconforto. Enfadara-se ela com o enredo da novela? Andava indisposta? Tinha sono? Não é isso, não é nada disso, ela falou. Quero apenas conversar com você. Há quanto tempo somos o duplo de nós mesmos? Há quanto tempo exibimos pela casa fantasmas que encobrem a nossa verdadeira identidade? Já não suporto esse silêncio. Quero falar de mim, saber de você, refletir, pensar junto, trazer à tona nossas interrogações diante da vida.
Curvada sobre ele, ela o segurou carinhosamente pelos ombros e o fitou nos olhos. Como vai você? O que tem pensado, sonhado, desejado? Apertou-lhe o peito com a mão espalmada: O que sente aqui? Ainda me ama como antes? É feliz?
Ele desconversou. Não estava preparado para inquirições àquela hora da noite. E, ao longo dos anos, aprendera a engolir inquietações, perguntas, desconfianças, disposto a pagar o preço do risco por uma tranqüilidade insofismável. Agora, diante dessa turbulência inesperada em pleno vôo, não sabia o que dizer e temia ser traído pelas palavras.
Recorreu ao parco vocabulário de uma convivência corriqueira, enfeixou na voz um grupo de sentenças banais e respondeu que a amava muito, sentia-se bem, feliz porque as coisas haviam melhorado no trabalho. Que tal se abrirmos um vinho?, propôs. Ela consentiu, dispôs-se a buscá-lo. Ao voltar da cozinha com a garrafa, as taças e os canapés, encontrou-o atento ao noticiário de esportes na TV.
Serviram-se e ela se recolheu ao mutismo, acrescentou apenas algumas frases a respeito de si mesma. Beberam como se tomassem fel. Pouco depois, pretextando cansaço, ela precipitou-se rumo ao quarto de dormir.
Ele ficou só. Sentiu medo de seu duplo, de seus fantasmas interiores, de tantas perguntas amordaçadas no fundo de seu peito. Tirou o som da TV e chorou como há muito tempo não o fazia. Sentia muita vergonha de si mesmo.

Frei Betto é escritor e autor, entre outros livros, de "Típicos Tipos - perfis literários" (A Girafa), Prêmio Jabuti 2005
|

Sunday, February 05, 2006

H e l e n a

H e l e n a

Parece nome de personagem de novela, mas se fosse teria que ser de novela mexicana. Tenho uma amiga herdada da minha esposa que não tem sorte na vida. Muito bonita, culta, professora de inglês de uma grande universidade particular, viaja muito por conta do seu trabalho. Falar dela é fácil, o difícil é por onde começar e como explicar assuntos tão doloridos por ela vivenciados.

Ontem, fomos às pressas para a casa dela de tarde. Sua mãe havia tido mais uma crise mental, dessas que a pessoa fica mais agressiva do que normalmente. Dessas crises que parecem que não vão ter mais fim. Ou melhor, que o fim da crise pode ser o fim da pessoa ou dos que a rodeiam. Como conter a pessoa que lhe deu a vida nesse mundo? Que lhe criou desde o aleitamento, passando pelas primeiras palavras e primeiros passos. Nessa hora, quando você precisa ter atitudes fortes e decisivas diante do ser que será referência até o dia da nossa morte, falta-lhe força e coragem. A situação vinha se arrastando há tempos. Crises menores haviam acontecido, o médico especialista que atendeu diagnosticou bipolaridade e passou forte medicação. Com o tempo, o tratamento foi sendo rejeitado pela paciente. Não havia muito como controlar. Helena trabalhava todos os dias e não podia ficar acompanhando os horários exatos da medicação. Discussões aconteciam por conta disso, mas o dia-a-dia fazia com que as causas fossem esquecidas. Havia o risco dos filhos adolescentes vivenciarem alguma situação de risco por conta das crises. Só que a gente nunca pensa que vai acontecer, principalmente se for com alguém de quem temos uma visão de amor e gratidão. Só que acabou acontecendo, exatamente dentro do quadro médico previsto para pessoas bipolares.
A única alternativa seria levar a uma clínica com estrutura ambulatorial. Na cidade havia uma, só que distante, do outro lado. Sem carro, sem ninguém para acompanhar na hora que você mais precisa de alguém. Lá foi Helena, deixando os filhos na casa dos avôs paternos, esquecendo de fechar a porta do apartamento e levando no pensamento a dúvida se aquilo seria certo. Internar alguém é sempre um ato de força de alguma das partes. Normalmente não queremos ser internados em nenhum tipo de clínica. Se o fazemos é por ordem médica ou pressão familiar que nos leva ao médico que faz a internação. No caso da mãe de Helena, havia alguma consciência de que algo estava errado. Mas o que? Daí a aceitação de ir até a clínica de saúde mental da cidade. Lá, após a entrevista, o médico indicou como caso inspirador de cuidados maiores. Sem oferecer muita resistência a mãe aceitou temendo a perda do controle mental definitivo.
C o n t i n u a..
|

Wednesday, February 01, 2006

Dona Baratinha





A história já é antiga, mas tem sempre algum fato para atualizá-la.
Quando morávamos no bairro de São Francisco, eu e Guilherme ao chegarmos da rua, nos deparamos com mamãe Cris em cima da mesa da cozinha. Em baixo da mesa, lépida e faceira uma barata voadora que é comum aparecer durante o verão. Após o assassinato que tivemos que cometer, dona patroa desceu da mesa e parou de gritar estabelecendo-se a tranqüilidade no lar.
Mudamos de bairro, ou como diria Guilherme, saímos da favela de rico, pois lá morávamos em morro cercados de casarões. Diga-se de passagem, mudamos porque a casa inundou nas chuvas de verão.
Moramos perto de praia atualmente, portanto longe das baratas voadoras. Mas não livres delas para meu azar. Anteontem, fui ameaçado pela dona patroa que ela só retornava para casa se eu matasse a dona baratinha que estava escondida na caixa de livros escolares do Guilherme. Terminado o expediente bancário, lá fui eu para casa realizar a tarefa heróica de caçar barata.
Primeiro tive que carregar a enorme e pesada caixa de livros escolares até a área, para que a bichinha não fugisse e se escondesse em lugar inacessível do apartamento. Foram minutos intermináveis, eu e meu assessor para assuntos aleatórios, Guilherme Cerdera, vasculhando cada cantinho da caixa e página de livro e caderno. Tudo isso para nada, pois a dona baratinha já tinha mudado de endereço. Dona patroa trancada no banheiro, aguardava ansiosamente pelo desenrolar da operação.
- Matou a barata? Perguntou num misto de medo e curiosidade.
- Sim! Respondi piscando o olho para o Guilherme.
- Você tá mentindo!
- Tô não! Se tiver, que caia um raio na minha cabeça! Falei e corri para dentro do apartamento para me proteger. Agora é aguardar o aparecimento da dona baratinha e torcer para que eu esteja em casa. Nessas horas me torno o homem mais corajoso do mundo, tipo Dom Quixote, ou seja lá quem eu possa ser.
|