
Chico "veste" o Rio no novo CD
Ao lançar CD em que tematiza a cidade, Chico Buarque analisa sua obra, fala de eleições, da Copa do Mundo e ri da fama de sedutor.
por Pedro Henrique Neves
Chico Buarque não lançava um disco desde 1998. Mesmo assim, não deixou de estar sempre onipresente - involuntariamente, na maioria dos casos - na mídia brasileira, seja em reportagens, participações especiais em trabalhos de amigos ou aparições cinematográficas.
Além disso, em menos de um ano, houve o lançamento de nove DVDs com documentários sobre a vida e obra do compositor, sendo que os três últimos chegaram ao mercado quase simultaneamente a "Carioca", o esperado CD, que estará a partir de hoje nas lojas de todo o País (nas fotos da capa, contracapa e encarte, o autor de "Tatuagem" aparece "tatuado" com o mapa da cidade, efeito obtido com projeção sobre a roupa branca e o corpo). Mas será que toda esta exposição na mídia ainda o incomoda? "Incomoda, claro. Mas o que se vai fazer? Ou dizem que o sujeito é arredio ou arroz de festa", brinca Chico, ao iniciar a coletiva na sede da gravadora Biscoito Fino, para onde foi depois de anos de contrato com uma multinacional.
"O disco coincidiu de ser lançado com os novos DVDs. Este projeto (os documentários) é bem antigo. Acabou dando muito mais trabalho do que eu imaginava, foram muitas entrevistas, muitas viagens. Eles tiveram que esperar eu terminar de escrever o livro para finalizar tudo", conta o cantor, referindo-se a "Budapeste", sua última empreitada no ramo literário, que cada vez ocupa mais a sua agenda. Talvez por isso, as composições tenham se tornado bastante esparsas nos últimos tempos. Quando entrou no estúdio para gravar "Carioca", ele tinha apenas três músicas prontas e acabou compondo o resto durante o processo. "Faço uma coisa separada da outra. Antes achava que, enquanto escrevia, o compositor estava adormecido. Hoje vejo que não. Enquanto escrevo, o compositor faz ginástica. Se antes minha literatura era muito ajudada pela música, hoje sinto o contrário", esclarece.
EleiçõesSem medo de gerar polêmicas, Chico afirma que votará em Lula novamente nas próximas eleições. Ele repete que, apesar de tudo, o PT ainda tem um dos melhores quadros políticos do País. "Disse e repito que tem muita gente chata no PT. Mas conheço e admiro a história do partido. Espero que depois das denúncias, ele se torne mais humilde e mais correto. O governo do PSDB também sofreu denúncias, muitas foram abafadas", relembra, sem querer alongar mais o assunto.
Bem-humorado, ele prefere comentar o novo disco - ainda sem previsão para shows - e a carreira literária. Aproveita ainda a ocasião para desmentir perante a imprensa duas características que ele parece carregar por toda a vida: a timidez e a fama de conquistador de corações femininos.
"Acho que um dia inventaram isso e não param de repetir. Nunca fui tímido. E, sinceramente, não vejo nada de sedutor. Quando me olho no espelho, penso: `Não é possível'. Se fosse há um tempinho atrás...", sorri o compositor, que completa 62 anos no próximo dia 19 de junho.
Copa do Mundo
Na data, ele estará voando de volta para o Brasil, depois de acompanhar os dois primeiros jogos da seleção brasileira na Copa da Alemanha. O pacote inclui ainda um show ao lado de Mart'nália, após a primeira partida. Sem querer arriscar palpites, ele diz que vai torcer, mas que não daria para apostar em um possível título.
Pela descriminalização da maconha
Os fãs de Chico podem comprar de olhos fechados o CD "Carioca", porque não se decepcionarão com a nova safra de músicas inéditas: todas com melodias sofisticadíssimas e letras muito bem elaboradas, como de praxe. É o caso das canções gêmeas "As atrizes" e "Ela faz cinema", além de "Renata Maria", parceria com Ivan Lins, já gravada por Leila Pinheiro.
Ou ainda "Outros sonhos", em que ele retoma o tema já explorado em "Sonhos, sonhos são", do último disco, "As cidades". Nesta última, há um polêmico verso dizendo que, em um sonho, "Maconha só se compraria/ na tabacaria". Sem querer entrar na discussão sobre violência e tráfico de drogas, Chico diz apenas ser favorável à descriminalização da maconha e outras drogas.
"Já usei maconha e cocaína. Não gosto, nunca me fez bem, mas jamais neguei que usei. Hoje vou à farmácia, com uma receita médica, comprar Dormonid, porque tenho insônia. Tenho amigos que dormem com maconha, mas comigo não surte efeito. Dizem que o remédio tem até um efeito pior, mas é o que eu uso. Quanto às políticas de repressão, já se viu que não têm sido eficazes. Pregar a abstinência do usuário também é ingênuo. É o mesmo que pregar a abstinência sexual para resolver a Aids", ironiza. Ao término das gravações do novo trabalho, Chico percebeu que o Rio de Janeiro estava muito presente no repertório. Foi quando resolveu compor uma canção falando especificamente da cidade. Acabou desistindo da idéia inicial - a de fazer algo em torno das belezas e do universo da Zona Sul, fartamente explorado pela Bossa Nova - e acabou compondo "Subúrbio", que abre o CD e cita bairros como Penha, Irajá, Acari, Pilares e Madureira, algo inédito em sua obra. O nome do disco, "Carioca", veio, naturalmente para amarrar o conceito. "É um pedido para que o Rio se manifeste por aquilo que tem de melhor. A cidade acabou renegada a segundo plano, como uma espécie de subúrbio de São Paulo. Tudo ficou concetrado lá, a economia e a política. Felizmente o Rio ainda é culturalmente muito importante. Mas encontrar um político importante no Rio é tão exótico quanto encontrar um artista em São Paulo, deixando claro que não tenho nada contra a cidade", compara. Questionado por um jornalista paulista sobre a possível reação dos habitantes da cidade, ele brinca: "Deixa os paulistas ficarem enciumados".
Antes de a coletiva ser encerrada, ele aproveita para reiterar um pedido aos jornalistas: "Sempre colocam que eu estava excepcionalmente falante, que deixei a timidez de lado na entrevista. Não agüento mais essa história, por favor", brinca Chico Buarque, fazendo uso do bom humor tipicamente carioca.
CARIOCA (Biscoito Fino) - CD com 12 faixas e DVD com documentário sobre o processo de produção do disco, dirigido por Bruno Natal. Preço sugerido: R$ 54,90 e R$ 36,90 (somente o CD).